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"Pontualidade é defeito de burgueses.
Marcar uma entrevista para as 8 e
chegar às 8 é uma coisa absurda e
condenável. Ninguém, absolutamente
ninguém, que se preze de ter bom-gosto, entrará antes das 11 num baile que principie às 9 horas.
“Madrugada” é assim. Perfeitamente
civilizada e revista de linha, não
quis sair no dia fixado. Fez-se mais
desejada, mais preciosa... Sai hoje,
catorze dias depois do que marcara.
George Brummel, rei da elegância no
seu tempo, era assim que fazia. E
esta foi uma das razões, talvez a
maior delas, que influíram no êxito
social de George Brummel.
“Madrugada”, imitando-o, só poderá
lucrar. “Ainsi soit-il..."
Foi
dessa forma, explicando o atraso do
lançamento apenas por um capricho de
estilo boêmio, que a revista
Madrugada se apresentou ao público
leitor. Trazendo na capa uma
ilustração de Sotéro Cósme, um dos
melhores traços art déco da época, o
magazine ganhou as ruas em 25 de
setembro de 1926. Não durou três
meses. Seu último número, com texto
laudatório prevendo o epitáfio,
circulou com data de 4 de dezembro
daquele mesmo ano. Foram apenas
cinco edições.
O
precoce padecimento não fugiu ao que
parecia ser uma regra daqueles idos:
a vida curta das publicações. Isso
acontecia ora devido ao escasso
público, ora à falta de anunciantes,
ora ao primitivo sistema de
distribuição. No Rio Grande do Sul,
em particular, apesar de todas essas
dificuldades, desde o século XIX
havia um histórico de investidas no
setor. Athos Damasceno Ferreira, em Imprensa Literária de Porto
Alegre no Século XIX, aponta que
entre 1856 e 1899 circularam na
capital gaúcha 90 títulos de jornais
e revistas apenas de conteúdo
literário (FERREIRA, 1975). Quase
todos estavam ligados a agremiações
que buscavam, por meio dessa
iniciativa, um espaço de afirmação
coletiva, legitimidade social e
construção de identidade. É o caso
dos impressos relacionados aos
estudantes da Faculdade de
Engenharia, aos clubes de jovens
escritores, aos apreciadores do
simbolismo, entre outros (MARTINS,
2001). Muitos desses títulos não
chegavam a completar um ano, mas é
interessante perceber que havia
empreendedores e condições, mesmo
que precárias, para tal aventura.
De
certa forma, essa efemeridade
referencia o momento de profundas
mudanças que vivenciava não somente
a sociedade brasileira, como todo o
mundo ocidental. Em termos de
Brasil, o final do século XIX é
marcado pela abolição da escravatura
e pelo advento da República,
aspectos que, por si só, engendram
toda uma dinâmica social
diferenciada. Para distinguir o novo
momento do país, muitos intendentes
assumiram a remodelação das cidades,
a começar pelo Rio de Janeiro, então
capital federal, que nos primeiros
anos do século XX passou por uma
expressiva reforma urbanística,
encabeçada pelo prefeito Pereira
Passos. Em Porto Alegre deu-se o
mesmo, porém mais tardiamente. Em
meados dos anos 20, os cidadãos
assistiram à abertura de frondosas
avenidas, à criação de praças e à
implantação da rede de iluminação
pública nas áreas centrais, entre
diversas outras melhorias.
Foi
também na passagem do XIX para o XX
que o mundo viu surgir novos meios
de locomoção e de transmissão, que
pareciam definitivamente encurtar as
distâncias. No ambiente privado,
produtos inovadores como o vaso
sanitário com descarga automática e
a pasta dentifrícia alteravam o
cotidiano da população, enquanto que
os parques de diversão, a fotografia
e, sobretudo, o cinematógrafo, com
suas imagens animadas,
encantavam legiões.
Todas essas transformações aparecem
noticiadas, comentadas e fartamente
ilustradas na revista ilustrada, impresso do momento, condensado,
ligeiro e de fácil consumo. O grande
escritor português Eça de Queirós já
comentava, em texto de 1897, sobre o
que esse tipo de publicação
representava naqueles idos...
Tão profusa, e complicada, e
tumultuária, e rápida se tem tornado
a vida moderna que, se os fatos
dominantes não fossem flagrantemente
apanhados em imagens concretas, e
fixados em resumos límpidos, nós
teríamos sempre a aflitiva sensação
de irmos levados num confuso e
pardacento redemoinho de ruído e
poeira. A revista é essa dedicada
amiga que destaca da massa
sombriamente movediças cenas e os
atores que, por um momento, merecem
risos e lágrimas.
A
presença da revista no dia-a-dia dos
brasileiros passou a ser constante
com a entrada do século XX. Um dos
fatores que mais contribuiu para a
sua significativa expansão foi a
escalada de um balbuciante público
leitor, o feminino. Beneficiadas com
as políticas de alfabetização, as
mulheres, antes alijadas do sistema
de consumo, transformaram-se no
público-alvo da maioria dos
magazines, que passaram a divulgar
informações, serviços e produtos de
interesse desse novo consumidor.
Por
outro lado, o advento da linotipo, o
aprimoramento das técnicas da
cromolitografia, o acesso a novos e
ágeis maquinários para impressão e a
progressiva melhora do papel
produzido no país asseguraram o
crescimento que a indústria
editorial experimentaria entre as
décadas de 10 e 30 (HALLEWELL,
1985). Foi nesse período que o
Brasil viu surgir as grandes casas
editoras e publicações que marcaram
gerações, como as revistas Fon-Fon!! (Rio de Janeiro,
1907-1958), Careta (Rio de
Janeiro, 1908-1960), Para Todos (1918-1932), O Cruzeiro (Rio de Janeiro, 1928-1975) e a Revista do Globo (Porto Alegre,
1929-1967), entre vários outros
títulos.
A
maioria desses periódicos contava
com o traço de grandes ilustradores
da época, como K. Lixto, que
ilustrava O Malho; Voltolino,
que desenhava para O Parafuso, O
Sacy, O Queixoso, A Vespa, O
Pirralho; Belmonte, que deixou
suas linhas acentuadas em O
Pirralho, Fon-Fon!, Careta, A
Cigarra, A Vida Moderna, A Garoa,
Para Todos e Novíssima;
Paim, que produziu para A
Cigarra, A Garoa, A Vida Moderna, tendo também ilustrado vários
livros; e J. Carlos, provavelmente o
maior ilustrador brasileiro do
século XX, autor de centenas de
capas para Careta, Fon-Fon!, Para
Todos, O Cruzeiro, O Malho, O
Tico-Tico..., sempre com seu
desenho refinadíssimo e
inconfundível.
Nas
capas das revistas, portanto, o
traço por vezes debochado, elegante
ou mordaz desses artistas do lápis
servia de chamariz para os leitores,
além de apresentar uma nova
visualidade, diversa da acadêmica.
No miolo das publicações, esses
desenhos atraíam os olhares para os
textos de consagrados ou de jovens
escritores. Lima Barreto, por
exemplo, durante anos escreveu para
a Fon-Fon!, sendo pago por
isso. Da mesma forma Olavo Bilac,
que publicou artigos em O
Pirralho, enquanto Oswald de
Andrade, n´A Cigarra. Num
momento em que praticamente nenhum
escritor vivia dos livros que
lançava, os jornais e as revistas
representavam não apenas a
possibilidade de uma certa
notoriedade, como também garantiam
algum dinheiro no final do mês. O
gênero revista beneficiou-se,
assim, dessas circunstâncias, tendo
intelectuais e escritores dispostos
a lhe fornecer material, quando
esses não ambicionavam criar suas
próprias publicações, como foi o
caso dos jovens autores
rio-grandenses que, em meados dos
anos 20, lançaram Madrugada.
A revista “do Grupo”
Em
1926, quando Madrugada desponta, circulavam no Rio Grande
do Sul títulos como A Illustração
Pelotense, Mascara e Kosmos. Os dois últimos eram editados em
Porto Alegre, então a cidade com o
maior número de publicações no
Estado, sendo também a maior
importadora de papel. Apesar do
aparecimento de fábricas de papel no
país, elas ainda não supriam a
demanda interna, o que obrigava
muitas gráficas a importar a
matéria-prima. A crise do insumo e o
seu alto preço foram muitas vezes
motivo de queixa e denúncia junto às
próprias revistas, como aparece em
artigo de Mascara, em sua
edição nº 21, de 1919:
Já se tornou bem um estribilho o
clamor da imprensa brasileira sobre
a falta crescente de papel para
impressões [...]. As revistas do
Rio, de São Paulo, do Brasil
inteiro, lutam com dificuldades
extremas para manter a sua feição e
o seu formato, umas havendo que
alteraram já fundamentalmente uma e
outro. As revistas de Porto Alegre
não constituem uma exceção. Mascara,
no entanto, sente-se feliz – de uma
felicidade misturada de orgulho – em
saber que pode enfrentar com
desassombro a carência atual de
papel, sem que deformações venham
mutilar-lhe o aspecto e alterar-lhe
a feição. Lamenta, porém, que o
pouco escrúpulo de alguns
fornecedores deste material ameace,
constantemente, a estabilidade e a
vida de publicações que mereciam bem
ser tratadas, já não dizemos com
carinho, mas com seriedade, ao
menos.
A tensão em torno do
papel era uma realidade. Foi devido
a ela que Kodak, surgida em
Porto Alegre em 1912, encerrou suas
atividades no princípio dos anos
20.
Embora em momento algum tenha havido
qualquer manifestação, por parte de Madrugada, em relação à
carência e à cotação do material, é
publicada na segunda edição, sob a
chamada O que se disse da
Madrugada, uma carta assinada
pelo leitor “C”, do jornal Diário de Notícias, que assim se
manifesta:
[...] Temos esperanças que
“Madrugada” vingue. É de admirar que
sendo Porto Alegre uma capital de
população avultada, onde a cultura
literária tem se desenvolvido
admiravelmente, todas as publicações
do gênero aqui lutem com os maiores
embaraços. A própria vida de
imprensa está restringida entre nós
a quatro jornais diários, dois da
manhã e dois da tarde, quando em
muitíssimas outras cidades do país,
até mesmo algumas de população
menor, há muito mais órgãos de
publicidade que Porto Alegre.
Vencendo todas essas injustificadas
dificuldades, “Madrugada” aí está
com seu belo gesto de audácia, em
caminho do dia radioso de amanhã.
Esperamos que assim seja. – C.
(Do “Diário de Notícias”).
Havia, portanto, uma notória
incredulidade em relação ao
lançamento de novas revistas no
mercado. O que não significa que Madrugada tenha sido recebida
com descaso. Pelo contrário. Foram
vários os elogios, muitos dos quais
reproduzidos na seção de “cartas” da
revista. Na edição nº 5, ênfase para
a manifestação enviada pelo
prestigiado magazine carioca Para
Todos:
Moderna, elegantíssima, com um
jeito de rapariga que nem está
ligando a morte de Rudolph Valentino,
apareceu em Porto Alegre uma
revista. Chama-se “Madrugada”. E vem
lindamente acompanhada. Pertence à
turma na qual sorriem, pensam, dizem
e fazem coisas J. M. de Azevedo
Cavalcanti, Theodemiro Tostes,
Augusto Meyer, João Sant’Anna, Dr.
Miranda Netto, Sotéro Cósme.
“Madrugada” é tão bonita, tão
inteligente, que excita o bairrismo
dos seus patrícios afastados das
cismas do Guaíba e dos crepúsculos
daquele céu sem fim.
Vendo-a, mostrando-a aos outros,
cada um diz, vaidoso: “É da minha
terra... Ela nasceu lá onde eu
nasci...”.
O
nascimento conceitual de Madrugada se deu na mesa cativa
que um grupo de velhos amigos e
jovens literatos mantinha no Café
Colombo. Faziam parte do “grupo”
Augusto Meyer, Theodemiro Tostes,
João Santana, Miranda Netto e J.M.
de Azevedo Cavalcanti, que assinavam
a direção do semanário, além de
Sotéro Cósme, responsável pela
edição de arte. Um sexto elemento do
“grupo” foi Paulo de Gouvêa, que não
chegou a trabalhar na revista, tendo
publicado apenas O Poema da Raça na edição nº 3. De acordo com
Gouvêa, foi J.M., o Jean des Rues da crônica social, quem sugeriu
a feitura do hebdomadário:
[...] A idéia foi recebida com
toda a reserva de que era capaz a
natural propensão de fugir a mais e
maiores encargos intelectuais, pois
que dos materiais JM se
encarregaria. Mas o JM tanto
insistiu, tanto batalhou, que saiu
vencendo. E o problema foi discutido
às avessas, pois começou pela
escolha do título. E ela ficou
batizada de Madrugada, nome pelo
qual Peregrino Júnior e Afrânio
Coutinho designaram o nosso grupo em
seus livros (básicos) sobre o
Modernismo no Brasil. [...] Era
impressa nas oficinas da Escola de
Engenharia. Um primor gráfico, digam
o que disserem, inclusive o gênio do
Modernismo – o senhor Alcântara
Machado (vocês conhecem esse nome?)
– que a tacha de ‘revisteca’. Pois
essa revisteca foi a mais bem feita,
a mais perfeita que até hoje se
imprimiu no Rio Grande do Sul. Seu
pecado foi inserir em seu conteúdo
perfeito algumas crônicas sociais e
tantas outras esportivas. Mas era
uma concessão obrigatória, o sine
qua non dramático das suas
possibilidades de sobrevivência: uma
publicação puramente literária não
tinha chance. Olhem para os dias de
hoje e me digam quantas delas
existem no Brasil inteiro. E se hoje
é assim, como seria tantos anos
atrás? [...] (GOUVÊA, 1976: 51).
Madrugada surge, então, como a revista do
“grupo”, todos jovens na faixa dos
24 anos, vindos das camadas média e
alta da sociedade porto-alegrense.
Nos três primeiros números, foi
semanal; depois, passou a ser
publicada quinzenalmente. Ainda
segundo Gouvêa (1976), a parte
comercial ficava, “obviamente”, por
conta de J.M.
Em
sua proposta editorial, pouco
destoava dos magazines ilustrados e
de forte apelo mundano encontrados
na cidade, como Mascara e Kosmos. A concessão à crônica
social estava expressa desde o
início, no slogan que a definia: Revista Semanal de Literatura, Artes
e Mundanismo. E, de certo modo,
ela era realmente uma mistura de
tudo isso. Folheando-a, o leitor
encontraria desde poemas, crônicas e
escritos da fina flor da
intelectualidade sulina, passando
por participações de nascimento,
noivado e casamento, anúncios da
chegada ou da partida de pessoas chics para o Rio de Janeiro,
para a Europa ou até mesmo para Dom
Pedrito, a programação dos clubes,
notas sobre congressos médicos,
encontros de esportistas, entre
dezenas de outros. A revista também
tanto poderia priorizar, numa
página, o desenho apurado de Sotéro
Cósme, como poderia, na seqüência,
apresentar um mosaico de fotografias
das jovens senhoritas, que
certamente eram motivo de alguma
disputa entre os rapazes da redação. E o que dizer das publicidades
estampadas em Madrugada, um
misto de reclames de profissionais
liberais com anúncios de joalherias,
automóveis, tecidos, alfaiatarias e
confeitarias, chegando até mesmo ao
Clube dos Caçadores, a principal
casa noturna masculina da capital!
Madrugada nos salões
A
revista era um produto híbrido e, ao
que parece, seus diretores não
alimentavam a menor inquietação
quanto a isso. Tudo leva a crer que
eles percebiam nesse convívio franco
e estreito entre a cultura erudita,
o mundanismo e o ambiente festivo
uma possibilidade de mudança de
mentalidade (GOLIN & RAMOS, 2006).
Nesse sentido, uma das práticas mais
estimuladas por eles foi a do sarau,
que eles chamavam de “festa
artístico-social”. De acordo com
pequeno texto publicado no magazine,
“[...] Oferecendo à sociedade
elegante de Porto Alegre os seus
saraus mensais, o novo semanário
apresenta-se a ela de uma maneira
altamente simpática”.
Já
na edição de estréia havia um
comentário sobre o primeiro sarau
promovido por Madrugada, ocorrido antes mesmo de ela existir.
O acontecimento tivera lugar no Club
Caxeiral, no dia 5 de setembro de
1926.
No
número seguinte, convite aberto a
todos os leitores:
Madrugada continuará na noite de 16
do mês corrente a série de saraus
artístico-sociais iniciada a 5 de
setembro.
Um programa de arte que ela organiza
com capricho, reunido à alegria das
danças, há de atrair, com certeza ao
Club Caxeiral a mesma concorrência
numerosa e distinta que cooperou
para o brilho da primeira festa.
Além das caricaturas de senhoritas
da nossa sociedade, traçadas pelo
lápis de Cosme, haverá números de
canto e música, acrescidos de uma
surpresa que será a nota original do
sarau.
As danças serão marcadas por um
original jazz-band.
Publicaremos em nosso próximo número
o programa completo dessa festa.
De
fato, na edição nº 3, lá estavam as
atrações do sarau vindouro, que
contaria com a participação de
“gentilíssimas senhoritas que
acederam imediatamente ao convite”.
[...] Além dos números de declamação
e canto que elas interpretarão,
haverá um bailado original pelas
senhoritas Irma Kunz, Elly Kuplich e
Gerda Mentz, e um quarteto de cordas
de Mozart, no qual figurarão alguns
dos nossos mais brilhantes artistas.
O
empreendimento parecia ser um
sucesso. No 4º número de Madrugada, era anunciado um
sarau ainda maior, a realizar-se em
6 de novembro “num dos grandes
teatros desta capital” – o lugar
escolhido foi o Theatro São Pedro –
e tendo como destaque a
apresentação, pela primeira vez, do
poema lírico As Máscaras, de
Menotti del Picchia.
No
volume posterior, ampla reportagem
dava conta do ocorrido, que
tivera o próprio Theodemiro Tostes
no papel de Arlequim, Oscar Daudt
Filho no de Pierrot, e a aclamada
estrela de teatro Iracema Alencar
como a Columbina. Vale a pena
reproduzir parte significativa desse
texto, uma vez que ele permite
entrever alguns dos objetivos do
“grupo”, ao promover tanto a
revista, quanto os saraus.
Não é a nós que compete dizer o
que representou como expressão
artística o festival, correspondente
a novembro, levado a efeito por
Madrugada no Theatro São Pedro.
Cabe-nos apenas registrar o seu
êxito magnífico, a viva simpatia com
que o receberam e o carinhoso
interesse com que contribuíram para
o seu maior brilho o público e os
artistas que participaram de sua
realização. Este seu resultado, o
único, basta para compensar-nos os
múltiplos e penosos esforços
despendidos para consegui-la. E
anima-nos a perseverar.
Em Porto Alegre, todas as
tentativas generosas que visem
intercalar na cotidianidade prosaica
da vida uma expressão superior de
arte e de beleza, costumam perecer
de início, estarrecidas, sobre a
estepe gelada da indiferença geral.
Os aplausos quentes que saudaram a
execução do programa da nossa festa
autorizam-nos a esperar um destino
melhor para a longa série de
tentativas audaciosas que
premeditamos. Não contávamos com
eles, e só podem ter o efeito de
firmar-nos em nosso propósito, como
um incentivo exterior, valiosíssimo,
à infinita confiança que temos no
êxito final da nossa aventura
atrevida.
Talvez isto pareça pretensão, coisa
escusável em rapazes que sabem
prezar em todo o seu valor a virtude
excelsa de serem jovens. Mas pode
ser que não. Afeitos ao desporto
emocionante de jogar cabeçadas
contra o impossível, com a faculdade
de resistência ao desânimo
desenvolvida até ao exagero, na
infatigável pertinácia de fazer,
apesar das dificuldades quase
insuperáveis de toda sorte, uma
revista popular de arte e
literatura, temos o direito de ousar
alguma coisa mais.
E era preciso tentá-lo. Uma revista
por si só não bastava para a
realização do nosso objetivo, que
devia apresentar, reunidos, num
único feixe, todo o trabalho
intelectual e artístico da nossa
geração. E à ação da revista
escapavam todas as artes que não
comportam suficiente expressão
gráfica ou literária. “Madrugada”
devia ter um suplemento cênico, há
de tê-lo.
Não parece demasiada a esperança de
que não havemos de ser sempre sós,
ou de que o público resista por
muito tempo à inclusão, em seus
hábitos de cinema, recepções e
bailes, de uma festa mensal de
espírito, organizada com
inteligência e gosto [...].
O
texto segue, comentando que há
condições de se mudar a dinâmica
social e cultural da província, uma
vez que existe “[...] juventude
bastante com que se possa contar
para uma obra desinteressada e
generosa [...]”. O articulista –
muito provavelmente Augusto Meyer –,
apesar de dizer que acredita numa
mudança de mentalidade, também deixa
transparecer em vários momentos um
pronunciado cansaço, uma certa
incredulidade. Isso é verificado,
inclusive, poucas páginas antes do
referido texto, num pequeno artigo
sobre a atriz rio-grandense Iracema
de Alencar, de renome nacional.
Comentando que ela se declarava
“[...] pronta a devotar os seus
esforços, o seu talento e a
experiência artística a qualquer
empreendimento que vise o
engrandecimento do teatro e redunde
em benefício para a cultura do meio
[...]”, o jornalista (Meyer?)
escreveu:
[...] Esta serena declaração oferece
todo um programa de realizações
grandiosas. E se não for praticável,
se não houver em nosso meio forças
vivas de idealidade suficientes para
levar a cabo uma obra de construção
cultural, ficará a beleza da atitude
que aquela frase traduz, como um
exemplo de desprendimento, de
coragem e de altruísmo, lições que
necessitamos muito, nós que vivemos
a lamentar o que nos falta, quando
nunca tentamos o mínimo esforço para
consegui-lo. Seríamos capazes de
desejar seriamente um teatro? Temos
uma atriz, a maior que o Brasil tem.
E vontade?...
A
despeito do declarado desencanto, na
mesma quinta edição, na página com
sugestivo título Phtahhotpou, outra chamada para uma “encantadora
festa de arte”, cujos destaques eram
a repetição do poema lírico As
Máscaras, de Menotti del Picchia;
a palestra Quando Buda sorri, de Athos Damasceno Ferreira,
ilustrada por Sotéro Cósme, e a
encenação da peça Magdalena sem
ser arrependida, farsa ou
tragédia em meio ato, de autoria de
Theodemiro Tostes, tendo como
protagonista a já supracitada
Iracema de Alencar.
Lendo toda a efusiva programação e
os permanentes brados de
renascimento cultural, quem
imaginaria que aquele seria o último
suspiro da revista? Quem, lendo-lhe
os textos, vendo a chamada para a
edição especial de Natal, poderia
prever o seu fim iminente? Talvez
apenas um leitor mais atento,
percebendo uma certa melancolia no
texto de Meyer, ou observando nas
primeiras páginas o reclame do
próprio Sotéro Cósme, oferecendo
seus préstimos como professor de
violino, poderia deduzir que algo
não ia bem...
Oxigenando os Sentidos
No
corpo da revista, os autores
trataram de promover as
manifestações culturais de sua
geração por meio de instigantes
textos e de um planejamento visual
que primava pelo não convencional. A
qualidade dos escritos era sem
dúvida um ponto forte de Madrugada. Embora a maioria dos
textos não seja assinada, o conjunto
de exemplares que serviu de matriz
para esse projeto traz várias
indicações escritas a lápis e à
caneta – ao que tudo indica, de
autoria de Sotéro Cósme –, que
apontam os responsáveis pelas
respectivas seções. Assim, por
exemplo, a página com o título Madrugada, reproduzindo a
logotipia de capa, era de Augusto
Meyer, enquanto que as notas sob a
cartola Chronica, na página
de abertura do magazine, ficavam por conta de Theodemiro
Tostes.
De
tom geralmente jocoso, os textos de Madrugada provocam o leitor,
satirizando velhos hábitos e as
tolices do cotidiano, fossem elas
corriqueiras ou de caráter
extraordinário, como é o caso do
texto relativo à morte do astro de
cinema Rodolfo Valentino:
As mocinhas cinéfilas levantaram no
Rio a idéia da ereção de uma estátua
a Rodolfo Valentino.
Muitos rapazes invejosos farão
crítica forte ou talvez brincadeiras
pesadas. Nada mais injusto! Afinal,
o dinheiro é das pobrezinhas, ganho
às vezes nas situações mais
difíceis. Criticaram as inocentes
pelas missas que mandaram rezar.
Ora, para que tanta dureza!
Elas são religiosas, e quiseram
denotar uma alma piedosa,
caritativa. Ele era tão bonito!
Outros dirão: a estátua de Machado
de Assis, que foi um grande cultor
da nossa língua, que foi um dos
nossos homens de letras mais
distintos, ainda não foi levantada.
Por esta elas não se importaram.
Pudera! O Machado foi um escritor
elegante, de um humor fino, que
levantou alto a nossa literatura,
mas não tinha aquele olhar do
Valentino. Credo! Parece que furava
a gente.
Pessoas hão de dizer: a estátua do
general Osório há dez anos que está
para ser levantada aqui, mas não sai
porque a subscrição paralisou.
Ora, Osório era um general ilustre,
levou muitas vezes as nossas armas à
vitória, arriscou mil vezes a vida
pela pátria, mas não sabia dar um
beijo como Valentino. Oh, o beijo do
Valentino!
Como será bom nas noites de luar, no
verão, enroscar os braços no pescoço
da estátua. No inverno ainda melhor,
porque a praça está deserta. É
aconselhável, porém, que se levante
uma grade bem alta em torno do
monumento, para evitar que, como a
andorinha de Wilde, amanheça alguém
sem vida aos pés do Príncipe Feliz.
As
moçoilas eram tema vital e constante
de Madrugada, seja motivando
algum deboche, como aparece de forma
cristalina no texto acima, seja
inspirando-lhes a admiração... E que
admiração! Páginas e mais páginas da
revista são voltadas aos rostinhos
bonitos da cidade, às lindas
criaturas, e também às forasteiras. Num exagero
editorial, a coluna Passeando (J.M.?) traz ainda mais comentários
sobre as diseuses que davam a
graça nos cafés da cidade:
[...] Na Rosicler, a deliciosa
boite, há um perfume perene de
mulheres. Infelizmente vai fechar...
acabar como um sonho oriental em que
houve muita luz, muitas figuras
lindas, muitos amores curtos,
superficiais, como os reflexos que
tremem nos espelhos. Há uma saudade
antecipada nos olhinhos das belas
habituées. Vininha de Bem,
deliciosamente invernal, açambarca
os olhos masculinos. E o jazz-band
Marinetti diz para a rua,
doidamente, suas parole in libertá....
[...] Será Marina Chaves? Ela é
bonita como a gente, que é homem,
tem vontade de ser, quando pensa que
há no mundo Rodolfo Valentino e
outros tipos fatais.
Olha: é a Alda Echenique. Tem uma
graça frágil de boneca. E uns olhos
infantis. Não é?
E depois uma ronda. Amélia Nonohay,
Vininha Lemos, Julinha Leivas de
Carvalho, uma ronda sem fim.
Catalogar o quê? ...Brincar de roda.
E cantar com vontade:
Anda a roda, desanda a roda que eu
quero colher a flor...
A
partir da terceira edição, seguindo
o sucesso que haviam representado as
reportagens do carioca João do Rio,
pseudônimo de Paulo Barreto, surgiu
em Madrugada a página A
Alma encantadora das Ruas, numa
clara referência e homenagem ao
cronista falecido em 1921 e que
havia mudado a forma de fazer
jornalismo no país. João do Rio, um
típico discípulo de Baudelaire, foi
o grande inspirador do flanêur local, lançando os diretores do
magazine às perambulações pelas
ruas, numa forma de perceber não
somente a urbe que se modernizava,
como também as novas relações
estabelecidas entre ela e os seus
transeuntes. Diferentemente, porém,
da tradição de João do Rio, a página A Alma encantadora das Ruas é
tão somente composta por
fotografias. E de moçoilas, c’est
sûr! Instantâneos mostram-nas na
saída da igreja ou pela Rua da
Praia, desfilando os chapéus e os
vestidos modernos no zanzar
constante pelo centro da cidade. A
Rua da Praia surge, aqui, como outro
personagem importante daqueles idos.
Ela era a grande vitrine, o ponto de
encontro da “boa sociedade”
porto-alegrense, o espaço dedicado à
prática do footing e
celebrado por meio de textos e
memórias da geração modernista.
Sobre ela, Augusto Meyer nos diz:
O passeio infalível, da esquina do
Café Colombo à esquina da Casa
Masson, ainda reproduzia o encontro
marcado numa praça ou na rua central
de uma pequena cidade do interior. A
Rua da Praia era como se fosse um
salão de clube, de portas abertas
para uma festa semanal, e onde, em
obediência a um rito profano, que
não devia nada aos mandamentos da
sinagoga, todos iam sabadear um
pouco. Todos ali se conheciam de
vista ou de palavra e, se em
conjunto não chegavam a constituir
uma tropilha de mesmo pêlo, davam
ares de primos ou contraparentes de
vários graus – pelo menos de sócios
ou convidados do mesmo grêmio
(MEYER, 1996, p. 180-181).
Afora o texto leve e por vezes
descomprometido, o elemento de maior
impacto de Madrugada residia
em seu tratamento visual, a cargo de
Sotéro Cósme. Com capa e contracapa
coloridas, a revista era impressa em
papel couché e media 29,5 x 21,5 cm,
variando entre 28 e 36 páginas. A
capa da primeira edição, com o fundo
branco e tendo ao centro uma figura
humana estilizada geometricamente,
bem ao gosto art déco, foi
sem dúvida um choque para a época e
já deixava claro que o magazine não
se pautaria por um tratamento
gráfico tradicional. O próprio
logotipo, especialmente desenhado
por Sotéro, refletia esse câmbio.
Num tempo em que a logotipia mudava
de acordo com o humor e o gosto do
ilustrador, sendo adequado ao espaço
de página que “sobrava”, Sotéro
criou uma padronização que, mesmo
tendo leves alterações na aplicação
junto às capas, era percebida ao
longo de todo magazine, como nos
cantos inferiores das páginas, junto
à numeração. Ao criar essa
identidade, ele assumiu o precoce
papel do designer gráfico, numa
época antes do design, para
usar a expressão de Rafael Cardoso
(CARDOSO, 2005).
Na
realidade, essa era uma prática
comum às redações e editoras
brasileiras. Aline Haluch, em artigo
sobre o design da revista A Maçã (Rio de Janeiro, 1922-1929), e
Julieta Costa Sobral, em ensaio
sobre o J. Carlos designer, apontam
essa constância (CARDOSO, 2005). O
fato é que os primeiros designers
gráficos brasileiros acabaram sendo
os artistas plásticos contratados
pelas casas editoriais para a
elaboração de capas e planejamento
de livros e revistas. Foi o que
aconteceu com Tomás Santa Rosa, que
assumiu e revolucionou, nos anos
30-40, a direção de arte da Livraria
José Olympio (CARDOSO, 2005). Foi o
que também aconteceu com a extinta
Editora Globo, sediada em Porto
Alegre. Como negar que se
desenvolveu na Secção de Desenho da
editora, coordenada por Ernst Zeuner,
uma escola de design gráfico,
lembrando que essa era formada
substancialmente por artistas
plásticos, a exemplo de João Fahrion,
Edgar Koetz e Nelson Boeira Faedrich
(GOMES, 2001; RAMOS, 2002)? Embora
nascido de forma quase espontânea,
sem arreios e tampouco normas, houve
um padrão criado pelos artistas da
Globo que influenciou a visualidade
e o imaginário de toda uma geração
no Rio Grande do Sul.
Em Madrugada, Sotéro antecipou a
ousadia gráfica que a Globo, nos dez
anos seguintes, assumiria como uma
de suas bandeiras. Nas capas das
edições 2 e 3, temos uma mostra de
seu virtuosismo. Na primeira,
referenciando a figura de São
Francisco de Assis, provavelmente
trabalhou com a técnica do scratchboard que dá um efeito
visual semelhante ao da xilogravura,
enquanto que, na segunda imagem,
temos um retrato caricatural, solto
no fundo branco, da senhorita Alba
Pinto Pinheiro, como se estivesse
triste com a chuva incessante que
não parava de cair sobre a cidade e
que, literalmente, pelo traço de
Sotéro, riscava o seu cabelo...
Os
grafismos requintados de Cósme
definem a revista, dando forma aos
personagens-síntese daqueles anos:
dândis e melindrosas. A sua
personalidade também está nas
cartolas escritas à mão, e na opção
pelos tipos de desenho mais
geométrico, sem serifa.
Provavelmente ele também fazia
anúncios publicitários (ou estava
disposto a fazê-los!), como se deduz
a partir de um reclame reproduzido
nas páginas finais do quinto número:
Para anúncios originais preparam-se
desenhos na redação da “Madrugada”
Ladeira 23 – Sala 2
Nas
duas últimas edições, Sotéro dividiu
o trabalho com outro jovem talentoso
artista, João Fahrion nome essencial
das artes rio-grandenses, há pouco
citado, e que se notabilizaria como
ilustrador da antiga Editora Globo.
Embora os dois tivessem linguagens
bastante distintas – Cósme
essencialmente gráfico e Fahrion
mais pictórico –, eles primavam por
uma quebra das estruturas
convencionais.
Madrugada não
vingou. O porquê, real, quem há de
saber? Paulo de Gouvêa aponta os
seus motivos: “[...] Apesar da
ginástica exaustiva do incansável e
incansado J.M, e da venda avulsa que
era muito grande, as dificuldades
financeiras próprias do gênero
revista, além de motivos outros,
lavraram a sentença capital”
(GOUVÊA, 1976, p.51).
Com
a sua dissolução, os antigos diretores acabaram integrando a
equipe da Página Literária do Diário de Notícias, um espaço
de discussão da nova literatura, sem
esquecer das imagens alongadas de
Sotéro e de Fahrion, iluminadoras do segmento.
Talvez Tostes, Meyer, Santana, J.M e
Sotéro não tenham conseguido,
efetivamente, transformar a
mentalidade provinciana, nem
subverter os costumes locais, como
tanto procuravam, mas nos legaram
uma imagem vicejante daqueles anos
20, em que o importante mesmo era
continuar, de preferência
bailando...
[...] Pois se a vida é um
jazz-band!... Se a vida é outro!...
E toda a mágoa fica lá fora do
salão, como um abrigo, uma
bengala... Vamos dançar, dançar
enquanto há força para mover os pés.
Maestro, príncipe! A vida é um
baile. Toca...
Referências Bibliográficas
A
Revista no Brasil. São Paulo:
Editora Abril, 2000.
CARDOSO, Rafael (org.). O Design
Brasileiro antes do Design –
Aspectos da História Gráfica,
1870-1960. São Paulo: Cosac Naify,
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Literária de Porto Alegre no Século
XIX. Porto Alegre: Editora da
Universidade/UFRGS, 1975.
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Jornalismo cultural no Rio Grande do
Sul: o Modernismo na efêmera
passagem da revista Madrugada
(1926). Anais do IV SBPJOR, Encontro
Nacional de Pesquisadores em
Jornalismo. Porto Alegre: UFRGS,
2006.
GOMES, Leonardo
Menna Barreto. Ernst Zeuner: Artista e Designer. Dissertação de Mestrado. Porto
Alegre: Faculdade dos Meios de
Comunicação Social da PUCRS, 2001.
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Alegre: Instituto Estadual do Livro;
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Queiroz/Edusp, 1985.
LOVE, Joseph. O Regionalismo Gaúcho.
São Paulo: Edusp, 1975.
MARTINS, Ana Luiza. Revistas em
Revista – Imprensa e Práticas
Culturais em Tempos de República
Velha (1890-1922). São Paulo: Edusp,
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MEYER, Augusto. Segredos da
Infância/No Tempo da Flor. Porto
Alegre: Instituto Estadual do Livro;
Editora da Universidade/FRGS, 1996.
TOSTES, Theodemiro. Nosso Bairro –
Memórias de Theodemiro Tostes. Porto
Alegre: Fundação Paulo do Couto e
Silva, 1989.
TRUSZ, Alice Dubina. A publicidade
nas revistas ilustradas: o
informativo cotidiano da
modernidade. Porto Alegre – Anos
1920. (Mestrado em História).
Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas – Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
2002.
Paula Ramos é
jornalista e doutoranda em
Artes Visuais, ênfase em
História, Teoria e Crítica
de Arte/UFRGS. É professora
junto ao Curso de Design do
Centro Universitário Ritter
dos Reis e junto aos cursos
de Arquitetura e Urbanismo e
Artes Visuais do Centro
Universitário Feevale.
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Detalhe da capa da primeira edição da Revsita Madrugada
Publicada em 25/09/1926
Capa de Sotéro Cósme


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